Em menos de 24h o mundo perdeu dois exemplos de luta. Stephen Hawking, o mais conhecido, foi o físico que tirou de todo mundo a desculpa de que a vida era difícil demais. É dele a frase que a inteligência se mede pela capacidade de adaptação. É também dele a citação « Embora não possa me mover e tenha que me comunicar através de um computador, em minha mente sou livre ».

Mente livre! Mente independente. Uma mente brilhante por sua capacidade de adaptação, de encontrar soluções, de ver a beleza e a ironia onde poucos enxergam. Que falta este homem vai fazer para o mundo em que ficamos.

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Uma falta que tem um consolo. Há algo que fica, que viaja livre, e que não precisa nem mesmo estar conectada à sua mente. Estou falando das ideias. Das ideias que ele deixou. Uma vez que expressadas, explicadas e exemplificadas, as ideias ganharam a liberdade. E nem mesmo a morte física do físico pode matá-las.

Essas ideias dele que seguirão conosco se assim merecermos. Se continuarmos a alimentá-las. As ideias de observar as estrelas, de questionar o porquê das coisas e se não poderiam ser diferentes.  A ideia de se interessar por tudo, apesar de tudo. A ideia de que o universo está numa casca de noz e de que tudo na natureza fala. E que podemos simplificar coisas complexas se realmente quisermos levar a entender um tema para o mundo.

Suas ideias, no entanto, podem sim chegar a morrer. Se ninguém as leva a sério, se ninguém der atenção. Seria uma pena. Tanto trabalho, tanto esforço, tanta luta deste cientista para que ninguém dê continuidade ao seu pensamento tão altruísta.

Ideias morrem de fome. Algumas precisam morrer. Ideias racistas, violentas, ideias estúpidas. Não deveríamos dar tanta voz a quem fala besteira. A cada bobagem dita, deveríamos publicar uma página dos livros de Hawking como antídoto. Quanto mais propagamos as ideias de ódio, mais alimentamos o que não faz sentido. E tiramos espaço das ideias (que não são poucas) que vieram para ajudar.

Ideias não se matam a tiros. Mas há quem pense que sim. E há quem use esta estratégia burra. Então, nessas últimas 24h também perdemos uma jovem brasileira, lutadora da ideia de que direitos humanos são para todos.

Marielle Franco era uma vereadora carioca nomeada relatora da comissão responsável por acompanhar a intervenção no Rio de Janeiro. Em sua página pessoal, ela seguia ideias como « por que a passagem de ônibus custa tão caro ? », « Por que tantos transexuais estão sendo assassinados ? », « Por que mulheres negras possuem menos oportunidades que os demais ? », e por fim, denunciava a truculência policial com os moradores em Acari. Por que ? A ideia de questionar o que não faz sentido estava incomodando quem vive da ideia de que não devemos questionar nada.

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No dia de sua morte conseguiram destruir sua carreira. Mas não conseguirão apagar suas ideias. E cabe à gente não deixar que essas ideias morram. Num belo casamento entre tempo e espaço, vamos difundir o que de mais precioso ela deixou.

Ideias não se matam. E temos muita gente para honrar agora. Depois dessas últimas 24h.

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