Num jornal francês, alguns especialistas suplicavam: Por favor, parem de dar tanto dever de casa para as crianças e adolescentes. A reação era quase imediata: teremos pessoas indisciplinadas, adolescentes à toa, crianças mimadas. Não, não teremos.

Vou relatar minha longa experiência como estudante primeiro para depois contar outras. Passei por diversas escolas na vida e, na primeira delas, ainda muito pequena, todo mundo fazia muito dever de casa, mas ainda não tínhamos aprendido a reclamar. Eu passava um tempo enorme sentada, com minha mãe do lado, fazendo o que não conseguia fazer sozinha. Minha mãe respirava fundo, mas ajudava. Acontece que era bem difícil para uma criança ficar tanto tempo olhando para caderno e livros, mesmo que fossem coloridos e bonitinhos como minha mãe e as professoras tentavam fazer. Uma vez, não me lembro se era férias, feriado ou se eu apenas tinha perdido aula por estar doente, a professora me deu uma quantidade incrível de dever de casa para compensar os dias sem aula. Eu passei todo o tempo livre tentando fazer estes exercícios. Meu pai se comoveu. Foi na escola conversar com as professoras. Não era possível que uma criança precisasse de tanto dever de casa.

Era tanto a fazer que uma vez, quando meu priminho nasceu, ao visita-lo no hospital, cheguei a dizer para minha tia “tenho pena dele” e ela não entendeu. Eu disse que tinha pena do tanto de dever de casa que ele ainda teria que fazer na vida. Ela riu e falou que isso não era nada. De fato, não é motivo para ter pena de uma criança, mas é algo a se pensar. Outra vez, visitando uma faculdade, perguntei para minha mãe se as pessoas na faculdade tinham ainda mais dever de casa que uma criança e ela disse que até tinham muitas responsabilidades, mas que faziam o que tinham escolhido. Aquela resposta me deu muita vontade de crescer logo.

Tempos depois, e por outros motivos, mudei-me de escola. Fui para uma escola onde as crianças reclamavam muito de dever de casa. E aprendi a reclamar também. Então o que era só difícil, passou a virar uma tortura. E quem não fazia era humilhado na frente de todo mundo, tratado como se fosse o último dos últimos. Tinha um colega meu que nunca fazia o dever. A professora sempre gritava muito com ele. Dava pena. Eu me perguntava por que ele nunca fazia. Hoje imagino que seja porque não tinha ambiente na casa dele, talvez os pais dele brigassem demais, talvez fosse tudo uma bagunça. Pode ter sido por malandragem também, não sei. Continuando.

Depois de um tempo passei a fazer dever de casa para meus colegas em troca de… vergonha… o pagamento era em paçoca! Um dia a professora desconfiou da letra muito bonita do dever de um amigo. Disse que homem não era tão caprichoso assim (?) e meu negócio acabou.

Passei a vida fazendo dever de casa, sentada olhando para o caderno. Na adolescência, essa era minha obrigação. Eu não aprendi a cozinhar ou a lavar as minhas roupas na adolescência. Isso até foi proposto pela minha família, mas não era minha obrigação. Minha obrigação era estudar. Mas fico pensando que se eu tivesse sido estimulada a atividades mais práticas (também), talvez tivesse entendido muito melhor sobre a força centrípeta e centrífuga da máquina de lavar roupa. Talvez tivesse sabido escolher melhor meu shampoo se os deveres de química apenas propusessem que cada um trouxesse o rótulo de seus produtos no banheiro ao invés de decorarmos tantas coisas que eu esquecia no dia seguinte da prova.

Mais pra frente aprendi umas malandragens. Aprendi a fazer dever de casa em cima da hora ou mesmo fazer o dever prestando atenção em outra coisa. Também percebi que o importante não era acertar o dever de casa, mas só mostrar que fez. Então fazia de qualquer jeito aquilo que não me interessava muito. Isso não ajudou nas notas, claro.

Depois de crescida,  tive duas oportunidades de conviver com as realidades de dever de casa. Fui trabalhar numa escola que tinha a opção de horário integral. E lá os alunos não precisavam nem levar os livros para casa porque todo o trabalho de revisão já era feito depois da aula, com acompanhamento de responsáveis. Achava aquilo maravilhoso! “Para casa, só material de leitura, casa é lugar é de aproveitar a família, o trabalho eles fazem na escola”, dizia a diretora. Mas aluno gosta tanto de malandrar, que alguns se gabavam de levar seus livros escondidos para casa para irem adiantando o dever de casa. Eu, como professora, sinceramente achava isso muito divertido! Usar a desobediência do aluno à favor da própria educação dele. Genial!

A outra experiência foi quando me mudei para a França e me ofereci como voluntária para acompanhar crianças (muitos filhos de imigrantes) com seus deveres. Eles tinham uma enorme dificuldade de concentração e só conseguiam fazer tudo quando a gente dizia que teria um jogo no final, ou quando contávamos uma historinha para fazer aquela informação abstrata parecer mais dentro da realidade deles. Depois iam para suas casas com os deveres já feitos. “Aproveitar a família”, eu me lembrava.

No jornal, o especialista dizia que o dever de casa acaba impondo à família o dever de acompanhamento escolar, o que pode ser muito segregador numa sociedade que se divide entre pessoas que estudam e pessoas que não puderam estudar. Um pai que não sabe ler não será capaz de ajudar seu filho a fazer o dever como minha mãe felizmente pode fazer comigo. Ou uma mãe que apanha do marido também não conseguirá se concentrar para essa atividade. Por isso é recomendado como atividades para casa justamente atividades que estimulem a união das pessoas, e não que elas se fechem ainda mais.

A alternativa é realmente que as escolas aprimorem o planejamento de revisão da matéria, que pode ser feito inclusive no horário de espera para ir embora, ou na entrada da escola no dia seguinte. O importante é revisar para que o conhecimento não seja perdido. Também é importante estimular no aluno a disciplina e a ideia de sentar e estudar algum assunto, mas que isso não seja maçante para ele. A criação do meu blog de Direito (Direito é Legal), por exemplo, foi um excelente estímulo para mim, que me obrigava a estudar muitos assuntos. É necessário um estímulo, mais que uma opressão, para fazer alguém estudar. Certeza!

(leia a sequência aqui)

Texto escrito para a minha coluna na #reviewslowliving