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janeiro 2017

A teoria dos pratinhos e a multiplicidade da vida

Era fim da hora do almoço e minha colega de trabalho deixava escorrer algumas lágrimas. Infelizmente, a relação com a mãe dela não estava muito boa. “Nunca consigo ter tudo indo bem. Quando o trabalho e a vida amorosa estão ótimos, aparece um problema na família. Quando a família está bem, aí é o trabalho que vai mal”. E a gente, meio que concordando, passava o guardanapo pra ela conter a lágrimas. “É difícil encontrar a paz absoluta em todos os campos da vida ao mesmo tempo. Toma mais um lencinho pra você”.

Anos depois, em uma outra conversa, com outras pessoas. No final de um relato, uma amiga concluiu: “A vida é mesmo um equilíbrio de pratinhos”! Como assim, Babu? Ela explicou algo como: Já viu aqueles equilibristas de pratinhos no circo? Eles têm que girar todos os pratos sem descanso, ou o prato cai. Pois a vida é igual. Cada pratinho é um ponto da vida. Tem horas que está tudo equilibrado de um lado e do outro lado tem um que está quase caindo e a gente tem que alcançar”. Depois dessa, a teoria dos pratinhos passou a explicar bem a minha vida. E vai fazer sentido pra sua também.

Ninguém é uma coisa só. Somos filhos, netos, sobrinhos, irmãos, amigos, alguns de nós somos pais. Somos profissionais, estudantes, viajantes, observadores, alunos e professores. Somos amores, amantes, amadores! Somos um mundo de amor para compartilhar ou não. Somos cheios de vontades, lutas, causas e projetos. Temos nossa vida espiritual, nossas dúvidas e respostas, nosso solilóquio, nossas buscas. Temos nossa vida financeira, nossa vida de administradores de casa, toda uma vida social e também uma vida com nossa própria saúde. Somos tão múltiplos que chega a ser inconstitucional impor uma limitação para a vida de alguém.

Pois dessas multiplicidades surgem os pratinhos que devemos equilibrar. E não é fácil. O equilibrista do circo treina anos para não deixar nada cair. Ele aprende que não pode parar, e ele aprende também a limitar a quantidade de pratinhos que consegue equilibrar. Alguns conseguem equilibrar três, outros cinco, outros dez. Varia de acordo com cada um. Outro dia brinquei com uma amiga que meu pratinho da matemática caiu e eu nem catei os cacos. Isso porque depois que saí da escola, nunca mais me concentrei nesse estudo (muito embora tenha trabalhado fazendo conta de troco o verão inteiro!). A matemática, embora seja uma ciência linda e admirável, não estava na minha lista de prioridades. Ou, pra falar combinando com o texto: não era mais um pratinho que eu queria e precisaria incluir na minha vida. Então guardei apenas o conhecimento mínimo de sobrevivência mesmo. Ou seja, regra de três!

Esse último parágrafo pode dar a impressão que todos os pratinhos são uma escolha. Mas não, né. Eu sei que você já está enumerando aí que o pratinho da saúde, da vida financeira, da família e alguns outros são indispensáveis para uma vida, digamos assim, razoavelmente harmônica. E aí eu me lembro da última conversa de bar que tive (e concorde comigo que estou te dando um superassunto pra conversa de bar aqui!). Disse um amigo meu entre um gole e outro de seja-lá-o-que-ele-estivesse-bebendo: “O meu pratinho do dinheiro não precisa estar tão cheio de dinheiro quanto o pratinho do dinheiro do meu vizinho, porque eu me contento com menos”. É isso aí! A medida é pessoal não só na quantidade de pratinhos, mas na qualidade deles.

Se a pessoa encontra a felicidade dela e dos seus com menos posses, por que ela teria que girar o pratinho tão freneticamente quanto quem precisa de carro de luxo e primeira classe para se sentir satisfeito com a vida financeira?

“Peraí, mas o que acontece se um pratinho cair?”, disse outro amigo, naquele mesmo bar (é um bar na beira de um riacho aqui em Avignon, uma delícia para essas reflexões no sábado à noite). Eu não sou a inventora da teoria, mas no meu entendimento, se um pratinho cair, temos que ver porquê ele caiu. E se for concluído que era realmente relevante, a ideia é fazer de tudo para colar os pedaços de volta. Relembro aqui que não é fácil. É mais fácil tentar nunca deixar cair a vê-lo espatifar e depois ter que remendar. Ou seja, tudo é difícil. Mais uma vez, não fui eu que inventei essa teoria. E, nem preciso dizer, mas não fui eu que compliquei a vida! Aliás, dica: tente descomplicar o máximo possível. Por exemplo: se você for amigo do pessoal do seu trabalho, já vai conseguir fazer girar uns dois ou três pratinhos ao mesmo tempo. Se você tiver uma boa relação com sua sogra também. Se você parar de comer bobagens e parar de deixar crescer inveja dentro de você, vai girar pratinhos como nunca! E pratinhos estáveis fazem bem pra saúde.

Diz pra mim, isso não muda nossa forma de ver a vida? E mais, isso não te faz querer reviver aqueles projetos que estão quase morrendo? O show tem que continuar. Vida é movimento e tentativa pós tentativa. Mesmo para quem pratica o slow living. O equilíbrio de tanta coisa depende da sua rotação: “A velocidade do peão nos mostra que, quanto mais intensa ela é, tanto mais firme é a estabilidade do mesmo, que até parece imóvel quando gira sobre sua diminuta ponta”, para usar como exemplo uma frase da Logosofia. Continuemos a girar! E fique tranquilo que está todo mundo mais ou menos na mesma esperança equilibrista. Como na canção!

 

(continua aqui!)

Texto escrito para minha coluna na #reviewslowliving

 

 

O dever de casa: uma análise como aluna e professora que fui

Num jornal francês, alguns especialistas suplicavam: Por favor, parem de dar tanto dever de casa para as crianças e adolescentes. A reação era quase imediata: teremos pessoas indisciplinadas, adolescentes à toa, crianças mimadas. Não, não teremos.

Vou relatar minha longa experiência como estudante primeiro para depois contar outras. Passei por diversas escolas na vida e, na primeira delas, ainda muito pequena, todo mundo fazia muito dever de casa, mas ainda não tínhamos aprendido a reclamar. Eu passava um tempo enorme sentada, com minha mãe do lado, fazendo o que não conseguia fazer sozinha. Minha mãe respirava fundo, mas ajudava. Acontece que era bem difícil para uma criança ficar tanto tempo olhando para caderno e livros, mesmo que fossem coloridos e bonitinhos como minha mãe e as professoras tentavam fazer. Uma vez, não me lembro se era férias, feriado ou se eu apenas tinha perdido aula por estar doente, a professora me deu uma quantidade incrível de dever de casa para compensar os dias sem aula. Eu passei todo o tempo livre tentando fazer estes exercícios. Meu pai se comoveu. Foi na escola conversar com as professoras. Não era possível que uma criança precisasse de tanto dever de casa.

Era tanto a fazer que uma vez, quando meu priminho nasceu, ao visita-lo no hospital, cheguei a dizer para minha tia “tenho pena dele” e ela não entendeu. Eu disse que tinha pena do tanto de dever de casa que ele ainda teria que fazer na vida. Ela riu e falou que isso não era nada. De fato, não é motivo para ter pena de uma criança, mas é algo a se pensar. Outra vez, visitando uma faculdade, perguntei para minha mãe se as pessoas na faculdade tinham ainda mais dever de casa que uma criança e ela disse que até tinham muitas responsabilidades, mas que faziam o que tinham escolhido. Aquela resposta me deu muita vontade de crescer logo.

Tempos depois, e por outros motivos, mudei-me de escola. Fui para uma escola onde as crianças reclamavam muito de dever de casa. E aprendi a reclamar também. Então o que era só difícil, passou a virar uma tortura. E quem não fazia era humilhado na frente de todo mundo, tratado como se fosse o último dos últimos. Tinha um colega meu que nunca fazia o dever. A professora sempre gritava muito com ele. Dava pena. Eu me perguntava por que ele nunca fazia. Hoje imagino que seja porque não tinha ambiente na casa dele, talvez os pais dele brigassem demais, talvez fosse tudo uma bagunça. Pode ter sido por malandragem também, não sei. Continuando.

Depois de um tempo passei a fazer dever de casa para meus colegas em troca de… vergonha… o pagamento era em paçoca! Um dia a professora desconfiou da letra muito bonita do dever de um amigo. Disse que homem não era tão caprichoso assim (?) e meu negócio acabou.

Passei a vida fazendo dever de casa, sentada olhando para o caderno. Na adolescência, essa era minha obrigação. Eu não aprendi a cozinhar ou a lavar as minhas roupas na adolescência. Isso até foi proposto pela minha família, mas não era minha obrigação. Minha obrigação era estudar. Mas fico pensando que se eu tivesse sido estimulada a atividades mais práticas (também), talvez tivesse entendido muito melhor sobre a força centrípeta e centrífuga da máquina de lavar roupa. Talvez tivesse sabido escolher melhor meu shampoo se os deveres de química apenas propusessem que cada um trouxesse o rótulo de seus produtos no banheiro ao invés de decorarmos tantas coisas que eu esquecia no dia seguinte da prova.

Mais pra frente aprendi umas malandragens. Aprendi a fazer dever de casa em cima da hora ou mesmo fazer o dever prestando atenção em outra coisa. Também percebi que o importante não era acertar o dever de casa, mas só mostrar que fez. Então fazia de qualquer jeito aquilo que não me interessava muito. Isso não ajudou nas notas, claro.

Depois de crescida,  tive duas oportunidades de conviver com as realidades de dever de casa. Fui trabalhar numa escola que tinha a opção de horário integral. E lá os alunos não precisavam nem levar os livros para casa porque todo o trabalho de revisão já era feito depois da aula, com acompanhamento de responsáveis. Achava aquilo maravilhoso! “Para casa, só material de leitura, casa é lugar é de aproveitar a família, o trabalho eles fazem na escola”, dizia a diretora. Mas aluno gosta tanto de malandrar, que alguns se gabavam de levar seus livros escondidos para casa para irem adiantando o dever de casa. Eu, como professora, sinceramente achava isso muito divertido! Usar a desobediência do aluno à favor da própria educação dele. Genial!

A outra experiência foi quando me mudei para a França e me ofereci como voluntária para acompanhar crianças (muitos filhos de imigrantes) com seus deveres. Eles tinham uma enorme dificuldade de concentração e só conseguiam fazer tudo quando a gente dizia que teria um jogo no final, ou quando contávamos uma historinha para fazer aquela informação abstrata parecer mais dentro da realidade deles. Depois iam para suas casas com os deveres já feitos. “Aproveitar a família”, eu me lembrava.

No jornal, o especialista dizia que o dever de casa acaba impondo à família o dever de acompanhamento escolar, o que pode ser muito segregador numa sociedade que se divide entre pessoas que estudam e pessoas que não puderam estudar. Um pai que não sabe ler não será capaz de ajudar seu filho a fazer o dever como minha mãe felizmente pode fazer comigo. Ou uma mãe que apanha do marido também não conseguirá se concentrar para essa atividade. Por isso é recomendado como atividades para casa justamente atividades que estimulem a união das pessoas, e não que elas se fechem ainda mais.

A alternativa é realmente que as escolas aprimorem o planejamento de revisão da matéria, que pode ser feito inclusive no horário de espera para ir embora, ou na entrada da escola no dia seguinte. O importante é revisar para que o conhecimento não seja perdido. Também é importante estimular no aluno a disciplina e a ideia de sentar e estudar algum assunto, mas que isso não seja maçante para ele. A criação do meu blog de Direito (Direito é Legal), por exemplo, foi um excelente estímulo para mim, que me obrigava a estudar muitos assuntos. É necessário um estímulo, mais que uma opressão, para fazer alguém estudar. Certeza!

(leia a sequência aqui)

Texto escrito para a minha coluna na #reviewslowliving

 

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