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Sobre festa e culpa

Precisamos falar sobre esse assunto. Não faz sentido tratar a festa, a celebração da vida como antônimo do trabalho. Primeiro que o trabalho também pode ser uma celebração da vida, segundo que a festa também pode te dar energia para muitas tarefas. Por que o trabalho é visto como tortura? Aliás, a palavra trabalho é derivada de “tripalium”, um instrumento de tortura. Como alguém pode primeiro pensar em verbalizar a tortura antes de pensar na beleza do trabalho? A beleza do fazer algo útil, da dignificação de oferecer a sua força, criatividade e energia para o mundo. Isso é trabalho! Mas também pode ser festa. Sem culpa.g

Ideias não se matam a tiros

Em menos de 24h o mundo perdeu dois exemplos de luta. Stephen Hawking, o mais conhecido, foi o físico que tirou de todo mundo a desculpa de que a vida era difícil demais. É dele a frase que a inteligência se mede pela capacidade de adaptação. É também dele a citação « Embora não possa me mover e tenha que me comunicar através de um computador, em minha mente sou livre ».

Mente livre! Mente independente. Uma mente brilhante por sua capacidade de adaptação, de encontrar soluções, de ver a beleza e a ironia onde poucos enxergam. Que falta este homem vai fazer para o mundo em que ficamos.

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Uma falta que tem um consolo. Há algo que fica, que viaja livre, e que não precisa nem mesmo estar conectada à sua mente. Estou falando das ideias. Das ideias que ele deixou. Uma vez que expressadas, explicadas e exemplificadas, as ideias ganharam a liberdade. E nem mesmo a morte física do físico pode matá-las.

Essas ideias dele que seguirão conosco se assim merecermos. Se continuarmos a alimentá-las. As ideias de observar as estrelas, de questionar o porquê das coisas e se não poderiam ser diferentes.  A ideia de se interessar por tudo, apesar de tudo. A ideia de que o universo está numa casca de noz e de que tudo na natureza fala. E que podemos simplificar coisas complexas se realmente quisermos levar a entender um tema para o mundo.

Suas ideias, no entanto, podem sim chegar a morrer. Se ninguém as leva a sério, se ninguém der atenção. Seria uma pena. Tanto trabalho, tanto esforço, tanta luta deste cientista para que ninguém dê continuidade ao seu pensamento tão altruísta.

Ideias morrem de fome. Algumas precisam morrer. Ideias racistas, violentas, ideias estúpidas. Não deveríamos dar tanta voz a quem fala besteira. A cada bobagem dita, deveríamos publicar uma página dos livros de Hawking como antídoto. Quanto mais propagamos as ideias de ódio, mais alimentamos o que não faz sentido. E tiramos espaço das ideias (que não são poucas) que vieram para ajudar.

Ideias não se matam a tiros. Mas há quem pense que sim. E há quem use esta estratégia burra. Então, nessas últimas 24h também perdemos uma jovem brasileira, lutadora da ideia de que direitos humanos são para todos.

Marielle Franco era uma vereadora carioca nomeada relatora da comissão responsável por acompanhar a intervenção no Rio de Janeiro. Em sua página pessoal, ela seguia ideias como « por que a passagem de ônibus custa tão caro ? », « Por que tantos transexuais estão sendo assassinados ? », « Por que mulheres negras possuem menos oportunidades que os demais ? », e por fim, denunciava a truculência policial com os moradores em Acari. Por que ? A ideia de questionar o que não faz sentido estava incomodando quem vive da ideia de que não devemos questionar nada.

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No dia de sua morte conseguiram destruir sua carreira. Mas não conseguirão apagar suas ideias. E cabe à gente não deixar que essas ideias morram. Num belo casamento entre tempo e espaço, vamos difundir o que de mais precioso ela deixou.

Ideias não se matam. E temos muita gente para honrar agora. Depois dessas últimas 24h.

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Mulheres, o que querem dos homens? E o que não querem?

Estamos talvez na primeira geração que pode escolher entre viver em casal ou não sem ser muito condenada pela sociedade. O julgamento, embora ainda existente, é cada vez menor.

Ao mesmo tempo, estamos em tempos de relações líquidas e amores rápidos. Viver uma relação é difícil, não apenas pelos desafios naturais de todo convívio, mas também porque agora é muito fácil mudar de ideia, trocar de opção ou escolher ficar sozinho (o que é uma escolha absolutamente legítima também).

Porém, o que antes era muito imputado para a mulher : satisfazer o homem em quase todos os níveis da vida. Agora é relativizado. Assim como algumas obrigações que eram imputadas ao homem também foram relativizadas, veja você. Ele não tem mais a obrigação de sustentar a casa e nem de bancar o fortão todo o tempo.

A relação a dois pode ser mais orgânica e mais leve. Só que os dois têm que querer. E querer significa que, além de amar, a gente também tem que assumir alguns esforços e exercitar demais o respeito por quem está do lado.

Esse respeito (e o desrespeito) aparece de formas tão sutis no dia a dia que ao longo de vários relacionamentos meus e outros que observava, fui estabelecendo uma lista imaginária do que eu gostava, do que eu gostaria e do que não gostava ou não gostaria de viver. Junto com outras amigas, ampliei a lista, que não tem o objetivo de ser exaustiva ou de representar a verdade absoluta para todas as mulheres, mas pode servir como base para ser levada em consideração. Lembrando que colaboraram aqui mulheres em sua maioria heteros, cis, brancas, classe média.

Alguns dirão que é utópico. Outros dirão é fundamental. Eu digo que é um sonho bem coletivo e como todo sonho coletivo, pode ser transformado em realidade sim.

Determinados itens são pessoais demais para se aplicarem a todas as moças. Tem gente que não gosta de namorar fumantes, já eu não me importo tanto, desde que ele não fume todo dia e nem dentro de casa. Porém, da minha parte, não quero mais um homem que assista televisão demais. Outras mulheres não ligam.

É fato que também temos muitos defeitos e estamos todos dispostos a conciliar um ou outro item em troca de uma história legal que construa para os dois. Mas de forma geral, a gente preferia que nada da primeira lista chegasse a acontecer ou voltasse a acontecer. E a gente adoraria que a segunda lista se realizasse, mesmo sabendo que gostar de alguém vai muito além que marcar check em todos os itens de uma lista.

Adianto uma coisa que é importantíssima e reafirmada pela grande parte das amigas com quem conversei: o respeito aos contratos. Ou seja, se a relação for fechada, que fique só entre os dois.

Faça bom proveito desta lista e faça a sua também, para te ajudar na hora de escolher. Lembrando : essas listas, assim como a estupidez e o amor, podem ser infinitas.

35 coisas que não queremos mais, que não apreciamos ou que não queremos jamais :

  • Homem que não fica feliz com as nossas conquistas
  • Homem que te culpa pelas frustrações dele (em todas as áreas da vida)
  • Homem que dá importância demais paras as frustrações dele e transforma a relação numa espécie de caça-frustrações (podendo usar isso como desculpa para traição)
  • A gente não quer mais ter que explicar pra ele que seria legal se ele lembrasse da gente durante o dia, enviasse uns memes, umas fotos, uns comentários divertidos
  • Não queremos mais nos sentir obrigadas a arrumar a bagunça que é deixada na casa todo dia, mesmo que seja ele quem ganha mais e pague pelos produtos de limpeza
  • Homem que fala muito de si e não dá abertura pro diálogo. É excelente saber que ele tem confiança em si mesmo, mas a partir do momento que parou de querer aprender com os outros, de se interessar em perguntar sobre o outro, só demonstra que foi pro extremo oposto
  • Aquela impressão de estar sozinha estando acompanhada da pessoa que diz que te ama. Quando demora demais essa impressão, a sensação de ser amada passa
  • A gente não curte não conseguir fazer nenhum projeto em comum. Ou até fazer, mas não levar nenhum adiante
  • Dureza: Ter que se defender das comparações dele sempre que encontra outra mulher.

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  • Homem que já teve filho, mas preferiu “manter a distância”, ou aqueles que têm filhos, mas negam a existência deles
  • E estar com alguém cujo cheiro te parece quase insuportável, seja pelo perfume forte escolhido por ele ou pela falta de asseio mesmo
  • E quando o sexo não faz mais sentido entre vocês ?
  • Homem que curte todas as fotos de todos os amigos e amigas nas redes sociais, mas que trata como se não te conhecesse nas redes. Essas pequenas crueldades da sociedade contemporânea.
  • Muito difícil saber que está com um problema e que não pode contar pra ele porque ele vai te culpar por isso e te fazer um discurso de como viver antes de propor uma ajuda
  • Homem que está sempre em dúvida se deveria mesmo ficar com você e que te propõe essa questão todo dia, como uma espécie de morte lenta da relação até um dia você terminar com ele ou virar a mulher padrão que ele está sugerindo que você vire
  • Homem que expõe os seus problemas (pessoais, ou de casal) para os amigos e até para estranhos sem que você tenha dado autorização para isso
  • Não deixa muitas saudades essa imposição de ter que ir dormir na mesma hora que ele, ou não poder trabalhar da cama porque ele se incomoda com o barulhinho do teclado ou da luz do computador
  • Um relacionamento sem troca de olhares ou de sorrisos é um relacionamento triste
  • Um homem que só queira os mesmos programas, que ignore qualquer ideia diferente nos deixa com a sensação de estarmos perdendo tempo e energia vivendo aquela história
  • Não vale a pena viver com um homem ciumento. Não vale a pena largar os amigos (homens e mulheres) por alguém que vai transformar tudo que você fizer de original num motivo para te culpar pelas inseguranças dele. Isso vai ficar doentio. É talvez o ponto mais negativo de toda essa lista
  • A gente não quer mais aguentar piadinhas do combo machista, homofóbico, racista
  • A gente também não tá afim de aturar piadinha de maldade com animais e muito menos a própria maldade
  • Homem que é quase alcóolatra e acha legal difundir essa ideia
  • Homem que ignora ou desrespeita a mãe ou simplesmente que desrespeita seres humanos como parte do cotidiano dele e se acha lacrador de dar uma resposta no frentista que não pode retrucar pra não perder o emprego
  • Não queremos mais nos sentir estranhamente enganadas, mesmo sabendo que não somos paranóicas
  • Dureza ter que fazer malabarismos para sermos ouvidas ou terminamos uma frase
  • Difícil aguentar comentários negativos sobre nossa aparência/idade/peso ou sobre a aparência de qualquer outra mulher por perto. Geralmente, a gente já têm ciência de qual é o corpo padrão e se não estamos nele temos nossas razões e uma delas se chama envelhecimento, coisa que também atinge os homens
  • Homem que te faz sentir estúpida, mesmo você sabendo que não é
  • Menos baranguice, menos drama, menos clichês e mais « amor, cortei as unhas do pé por você »
  • A gente não quer mais se sentir mãe do cara… e não estamos falando no caso de ter que dar uma força quando ele estiver doente, ou ter que dar uma dica pra quando ele desorganizar demais. Estamos falando de se sentir realmente morando com um filho grande e que te responde pra tudo como se estivesse falando com a mãe
  • Homem que te deixa no vácuo, principalmente se for na frente dos amigos
  • Homem que, quando você sofre o assédio de alguém, fica do lado desse alguém e diz que a culpa é sua
  • Homem que fala que suas amigas “não prestam”. Aliás, homem que categoriza as mulheres dessa forma sem ter visto a ficha policial delas
  • Homem que em qualquer probleminha de casal liga para os pais para colocar a culpa na mulher
  • Homem que olha pra outra mulher na sua frente, e se você pede mais discrição, ele diz que você é uma louca ou uma ciumenta incurável. Homem que te acusa de ser louca com tudo que você pede para dar uma mudadinha #gaslighting

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35 coisas que a gente gosta ou que a gente adoraria viver em casal:

  • Momentos de carinho em que a gente esqueça que o celular existe
  • Viajar juntos
  • ir no mercado e supermercado juntos
  • fazer compostagem e diminuir a quantidade de lixo produzido pela casa juntos
  • aprender coisas novas com ele e perceber que ele também aprende coisas novas com você
  • Que a gente possa ficar em silêncio juntos, mas que nunca falte assunto
  • conhecer pontos de vista diferentes, aceitar e conviver com isso
  • Fazer um projeto em comum. Às vezes são filhos, às vezes é um projeto profissional, às vezes é um projeto decorativo, de viagens, de auto-conhecimento, de um site, um aplicativo, de uma associação, de programas juntos, de adotar cachorros e criar galinhas ou é de tudo isso. A gente tende a acreditar que projetos em comum são das coisas que dão mais sentido para a vida a dois.
  • Ter amigos em comum e aceitar os que ainda não integraram a galera
  • Rir muito juntos. Tem coisa mais bonita que um casal que se reconhece no senso de humor?

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  • Admirar a pessoa com quem estamos e nos sentir admiradas por ela
  • Poder contar com o cara quando a gente estiver num dia/fase mais difícil
  • Ter uma vida sexual que não se perca no tempo, e que a gente saiba entender e encontrar soluções quando/se passar por uns períodos mais lentinhos
  • Que nossa individualidade não implique num risco para o casal e sim algo que atice ainda mais nosso interesse/admiração/aprendizado um com o outro
  • Que seja uma relação conciliadora e sempre de muito respeito, que a gente não caia na desatenção e indiferença nem na hora de passar o sal
  • Que nosso ninho seja um ninho, mas que a gente não pare de ver/receber amigos, de se divertir, juntos e separados
  • Que a gente goste de cozinhar entre a gente [mas que ele goste um pouquinho mais porque eu tenho preguiça de cortar cebola – essa parte acrescentei por mim mesma]
  • Que a gente possa se ajudar a superar nossos maiores monstros
  • Que ele goste de saber em que ponto você está nesse processo diário pelo auto-conhecimento e tudo mais que envolve olhar pra dentro
  • Que ele também curta se auto-conhecer
  • Que nós sejamos o ouvido um do outro e também o ombro
  • Que a gente goste de apreciar a natureza e fazer uns planos de programas diferentinhos
  • Que a gente goste e possa caminhar juntos
  • Que nossas dificuldades financeiras venham em épocas diferentes e a gente possa ser o suporte um do outro quando precisar, sem nunca ter que jogar isso na cara de ninguém
  • Que a gente não tenha que jogar nada na cara de ninguém, mas se acontecer, que saibamos pedir desculpas
  • Que a confiança em si mesmo e no outro seja o terceiro elemento desse amor e meia dúzia de problemas acabarão por aí
  • Que a gente saiba falar sim e possa também falar não sem que isso cause grandes problemas e culpas
  • Que a gente possa dançar de vez em quando, no quarto, na sala, só porque isso é bom
  • Que a gente tenha uma sensibilidade artística pelo menos um pouco compatível. Não precisa ser completamente, mas que ajude a ampliar nosso interesse pelo que o outro considera como arte. Que ele tenha uma certa poesia de viver
  • Que a gente tenha suficiente paciência e tolerância para muita coisa que façamos juntos e isso inclui a prática de esportes
  • Que a gente tenha uma playlist só pra safadezas e que ele te mande um sms no meio da tarde : « Simply falling, inclui essa »
  • Que as tarefas domésticas sejam divididas, mas que não seja um cenário militar no caso de alguém escapulir de vez em quando
  • Que a gente conquiste a difícil arte de se comunicar pelo olhar
  • Que ele tenha uma família suportável e suporte a nossa também
  • Que a gente tenha uma energia jovem. Independentemente da idade !

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“Tão bom morrer de amor e continuar vivendo” Mário Quintana

imagens retiradas do instagram @amoresanonimos e do meu @diorelak

Sobre dar presente para todo mundo

Nesta época do ano é comum meus amigos viajarem e reencontrarem seus primos, colegas de infância etc. Um deles, pensou em levar para um primo que tem problema no pé, umas botas sem costura que achou por aí. Mas ao mesmo tempo, surgiu um problema “se eu levar para um, tenho que levar para todos, se não vai dar briga”. Ora, isso é até ofensivo para os outros primos. Considerar que somos feitos de inveja deste jeito. Que não conseguimos entender que o presente foi dado numa esperança de melhorar o problema de saúde do outro e não numa demonstração de preferência. E ainda que fosse, qual o problema de não sermos os preferidos se ainda somos amados de tantas formas diferentes? E para quem presenteia isso se torna uma escravidão da inveja alheia (se ela existir). Vamos nos pautar pelo que há de pior no ser humano? Presentes, de uma forma geral, são gestos simbólicos. Principalmente nestas épocas do ano em que nos é quase imposto comprar “lembrancinhas” para todo mundo. Para reduzir o impacto desta fase sem nadar contra a maré são muitas as soluções criativas para isso: amigo oculto de talentos, presentes de coisas usadas e segunda mão, estar presente como presente, cartas, livros lidos, presente de experiências e presentes realmente necessários. Também é indicado dar preferência para o mercado local e o pequeno produtor.

🇬🇧 At this time of the year my friends travel and meet their cousins, childhood friends etc. One of them, thought of buying to a cousin who has foot trouble, some seamless boots he found out there. At the same time, a problem started “if I give it, I have to take give one for each cousin, or they are going to fight.” This is even offensive to the other cousins. Consider that they are made of envy this way. That they can not understand that the gift was given to help the health problem of the other and not in a demonstration of preference. And yet, what is the problem of not being preferred if we are still loved in so many different ways? And for the gifting guy, the last thing he needs is to become an slave of others envy (if true). Are we going to guide ourselves by what is worse in human being? Gifts, in general, are symbolic gestures. Especially in these times when we are almost forced to buy “souvenirs” for everyone. To reduce the impact of this without being a pain we can find many creative solutions to this: gift of talents, gifts of used and second hand things, a gift about being present, gift letters, gift read books, gift experiences and what my friend is practicing: a really needed gift. It is also ideal to give preference to the local market and the small producer!

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PS. Este texto foi escrito para meu projeto @Lawsumerism no instagram e facebook.

A teoria dos pratinhos e a multiplicidade da vida

Era fim da hora do almoço e minha colega de trabalho deixava escorrer algumas lágrimas. Infelizmente, a relação com a mãe dela não estava muito boa. “Nunca consigo ter tudo indo bem. Quando o trabalho e a vida amorosa estão ótimos, aparece um problema na família. Quando a família está bem, aí é o trabalho que vai mal”. E a gente, meio que concordando, passava o guardanapo pra ela conter a lágrimas. “É difícil encontrar a paz absoluta em todos os campos da vida ao mesmo tempo. Toma mais um lencinho pra você”.

Anos depois, em uma outra conversa, com outras pessoas. No final de um relato, uma amiga concluiu: “A vida é mesmo um equilíbrio de pratinhos”! Como assim, Babu? Ela explicou algo como: Já viu aqueles equilibristas de pratinhos no circo? Eles têm que girar todos os pratos sem descanso, ou o prato cai. Pois a vida é igual. Cada pratinho é um ponto da vida. Tem horas que está tudo equilibrado de um lado e do outro lado tem um que está quase caindo e a gente tem que alcançar”. Depois dessa, a teoria dos pratinhos passou a explicar bem a minha vida. E vai fazer sentido pra sua também.

Ninguém é uma coisa só. Somos filhos, netos, sobrinhos, irmãos, amigos, alguns de nós somos pais. Somos profissionais, estudantes, viajantes, observadores, alunos e professores. Somos amores, amantes, amadores! Somos um mundo de amor para compartilhar ou não. Somos cheios de vontades, lutas, causas e projetos. Temos nossa vida espiritual, nossas dúvidas e respostas, nosso solilóquio, nossas buscas. Temos nossa vida financeira, nossa vida de administradores de casa, toda uma vida social e também uma vida com nossa própria saúde. Somos tão múltiplos que chega a ser inconstitucional impor uma limitação para a vida de alguém.

Pois dessas multiplicidades surgem os pratinhos que devemos equilibrar. E não é fácil. O equilibrista do circo treina anos para não deixar nada cair. Ele aprende que não pode parar, e ele aprende também a limitar a quantidade de pratinhos que consegue equilibrar. Alguns conseguem equilibrar três, outros cinco, outros dez. Varia de acordo com cada um. Outro dia brinquei com uma amiga que meu pratinho da matemática caiu e eu nem catei os cacos. Isso porque depois que saí da escola, nunca mais me concentrei nesse estudo (muito embora tenha trabalhado fazendo conta de troco o verão inteiro!). A matemática, embora seja uma ciência linda e admirável, não estava na minha lista de prioridades. Ou, pra falar combinando com o texto: não era mais um pratinho que eu queria e precisaria incluir na minha vida. Então guardei apenas o conhecimento mínimo de sobrevivência mesmo. Ou seja, regra de três!

Esse último parágrafo pode dar a impressão que todos os pratinhos são uma escolha. Mas não, né. Eu sei que você já está enumerando aí que o pratinho da saúde, da vida financeira, da família e alguns outros são indispensáveis para uma vida, digamos assim, razoavelmente harmônica. E aí eu me lembro da última conversa de bar que tive (e concorde comigo que estou te dando um superassunto pra conversa de bar aqui!). Disse um amigo meu entre um gole e outro de seja-lá-o-que-ele-estivesse-bebendo: “O meu pratinho do dinheiro não precisa estar tão cheio de dinheiro quanto o pratinho do dinheiro do meu vizinho, porque eu me contento com menos”. É isso aí! A medida é pessoal não só na quantidade de pratinhos, mas na qualidade deles.

Se a pessoa encontra a felicidade dela e dos seus com menos posses, por que ela teria que girar o pratinho tão freneticamente quanto quem precisa de carro de luxo e primeira classe para se sentir satisfeito com a vida financeira?

“Peraí, mas o que acontece se um pratinho cair?”, disse outro amigo, naquele mesmo bar (é um bar na beira de um riacho aqui em Avignon, uma delícia para essas reflexões no sábado à noite). Eu não sou a inventora da teoria, mas no meu entendimento, se um pratinho cair, temos que ver porquê ele caiu. E se for concluído que era realmente relevante, a ideia é fazer de tudo para colar os pedaços de volta. Relembro aqui que não é fácil. É mais fácil tentar nunca deixar cair a vê-lo espatifar e depois ter que remendar. Ou seja, tudo é difícil. Mais uma vez, não fui eu que inventei essa teoria. E, nem preciso dizer, mas não fui eu que compliquei a vida! Aliás, dica: tente descomplicar o máximo possível. Por exemplo: se você for amigo do pessoal do seu trabalho, já vai conseguir fazer girar uns dois ou três pratinhos ao mesmo tempo. Se você tiver uma boa relação com sua sogra também. Se você parar de comer bobagens e parar de deixar crescer inveja dentro de você, vai girar pratinhos como nunca! E pratinhos estáveis fazem bem pra saúde.

Diz pra mim, isso não muda nossa forma de ver a vida? E mais, isso não te faz querer reviver aqueles projetos que estão quase morrendo? O show tem que continuar. Vida é movimento e tentativa pós tentativa. Mesmo para quem pratica o slow living. O equilíbrio de tanta coisa depende da sua rotação: “A velocidade do peão nos mostra que, quanto mais intensa ela é, tanto mais firme é a estabilidade do mesmo, que até parece imóvel quando gira sobre sua diminuta ponta”, para usar como exemplo uma frase da Logosofia. Continuemos a girar! E fique tranquilo que está todo mundo mais ou menos na mesma esperança equilibrista. Como na canção!

 

(continua aqui!)

Texto escrito para minha coluna na #reviewslowliving

 

 

O dever de casa: uma análise como aluna e professora que fui

Num jornal francês, alguns especialistas suplicavam: Por favor, parem de dar tanto dever de casa para as crianças e adolescentes. A reação era quase imediata: teremos pessoas indisciplinadas, adolescentes à toa, crianças mimadas. Não, não teremos.

Vou relatar minha longa experiência como estudante primeiro para depois contar outras. Passei por diversas escolas na vida e, na primeira delas, ainda muito pequena, todo mundo fazia muito dever de casa, mas ainda não tínhamos aprendido a reclamar. Eu passava um tempo enorme sentada, com minha mãe do lado, fazendo o que não conseguia fazer sozinha. Minha mãe respirava fundo, mas ajudava. Acontece que era bem difícil para uma criança ficar tanto tempo olhando para caderno e livros, mesmo que fossem coloridos e bonitinhos como minha mãe e as professoras tentavam fazer. Uma vez, não me lembro se era férias, feriado ou se eu apenas tinha perdido aula por estar doente, a professora me deu uma quantidade incrível de dever de casa para compensar os dias sem aula. Eu passei todo o tempo livre tentando fazer estes exercícios. Meu pai se comoveu. Foi na escola conversar com as professoras. Não era possível que uma criança precisasse de tanto dever de casa.

Era tanto a fazer que uma vez, quando meu priminho nasceu, ao visita-lo no hospital, cheguei a dizer para minha tia “tenho pena dele” e ela não entendeu. Eu disse que tinha pena do tanto de dever de casa que ele ainda teria que fazer na vida. Ela riu e falou que isso não era nada. De fato, não é motivo para ter pena de uma criança, mas é algo a se pensar. Outra vez, visitando uma faculdade, perguntei para minha mãe se as pessoas na faculdade tinham ainda mais dever de casa que uma criança e ela disse que até tinham muitas responsabilidades, mas que faziam o que tinham escolhido. Aquela resposta me deu muita vontade de crescer logo.

Tempos depois, e por outros motivos, mudei-me de escola. Fui para uma escola onde as crianças reclamavam muito de dever de casa. E aprendi a reclamar também. Então o que era só difícil, passou a virar uma tortura. E quem não fazia era humilhado na frente de todo mundo, tratado como se fosse o último dos últimos. Tinha um colega meu que nunca fazia o dever. A professora sempre gritava muito com ele. Dava pena. Eu me perguntava por que ele nunca fazia. Hoje imagino que seja porque não tinha ambiente na casa dele, talvez os pais dele brigassem demais, talvez fosse tudo uma bagunça. Pode ter sido por malandragem também, não sei. Continuando.

Depois de um tempo passei a fazer dever de casa para meus colegas em troca de… vergonha… o pagamento era em paçoca! Um dia a professora desconfiou da letra muito bonita do dever de um amigo. Disse que homem não era tão caprichoso assim (?) e meu negócio acabou.

Passei a vida fazendo dever de casa, sentada olhando para o caderno. Na adolescência, essa era minha obrigação. Eu não aprendi a cozinhar ou a lavar as minhas roupas na adolescência. Isso até foi proposto pela minha família, mas não era minha obrigação. Minha obrigação era estudar. Mas fico pensando que se eu tivesse sido estimulada a atividades mais práticas (também), talvez tivesse entendido muito melhor sobre a força centrípeta e centrífuga da máquina de lavar roupa. Talvez tivesse sabido escolher melhor meu shampoo se os deveres de química apenas propusessem que cada um trouxesse o rótulo de seus produtos no banheiro ao invés de decorarmos tantas coisas que eu esquecia no dia seguinte da prova.

Mais pra frente aprendi umas malandragens. Aprendi a fazer dever de casa em cima da hora ou mesmo fazer o dever prestando atenção em outra coisa. Também percebi que o importante não era acertar o dever de casa, mas só mostrar que fez. Então fazia de qualquer jeito aquilo que não me interessava muito. Isso não ajudou nas notas, claro.

Depois de crescida,  tive duas oportunidades de conviver com as realidades de dever de casa. Fui trabalhar numa escola que tinha a opção de horário integral. E lá os alunos não precisavam nem levar os livros para casa porque todo o trabalho de revisão já era feito depois da aula, com acompanhamento de responsáveis. Achava aquilo maravilhoso! “Para casa, só material de leitura, casa é lugar é de aproveitar a família, o trabalho eles fazem na escola”, dizia a diretora. Mas aluno gosta tanto de malandrar, que alguns se gabavam de levar seus livros escondidos para casa para irem adiantando o dever de casa. Eu, como professora, sinceramente achava isso muito divertido! Usar a desobediência do aluno à favor da própria educação dele. Genial!

A outra experiência foi quando me mudei para a França e me ofereci como voluntária para acompanhar crianças (muitos filhos de imigrantes) com seus deveres. Eles tinham uma enorme dificuldade de concentração e só conseguiam fazer tudo quando a gente dizia que teria um jogo no final, ou quando contávamos uma historinha para fazer aquela informação abstrata parecer mais dentro da realidade deles. Depois iam para suas casas com os deveres já feitos. “Aproveitar a família”, eu me lembrava.

No jornal, o especialista dizia que o dever de casa acaba impondo à família o dever de acompanhamento escolar, o que pode ser muito segregador numa sociedade que se divide entre pessoas que estudam e pessoas que não puderam estudar. Um pai que não sabe ler não será capaz de ajudar seu filho a fazer o dever como minha mãe felizmente pode fazer comigo. Ou uma mãe que apanha do marido também não conseguirá se concentrar para essa atividade. Por isso é recomendado como atividades para casa justamente atividades que estimulem a união das pessoas, e não que elas se fechem ainda mais.

A alternativa é realmente que as escolas aprimorem o planejamento de revisão da matéria, que pode ser feito inclusive no horário de espera para ir embora, ou na entrada da escola no dia seguinte. O importante é revisar para que o conhecimento não seja perdido. Também é importante estimular no aluno a disciplina e a ideia de sentar e estudar algum assunto, mas que isso não seja maçante para ele. A criação do meu blog de Direito (Direito é Legal), por exemplo, foi um excelente estímulo para mim, que me obrigava a estudar muitos assuntos. É necessário um estímulo, mais que uma opressão, para fazer alguém estudar. Certeza!

(leia a sequência aqui)

Texto escrito para a minha coluna na #reviewslowliving

 

A maioridade, a maioria e os maiorais

Hoje eu tive um pequeno desprazer de ver circular de novo uma lista mentirosa na internet. A postagem  inventa uma mentira sobre as maioridades penais em países considerados desenvolvidos. Inventa por exemplo que na França a maioridade penal é de 13 anos, sendo que não, é de 18 anos. A responsabilidade criminal é de 13 anos, assim como no Brasil é de 12.

(…)

Continue a leitura aqui.

(Blog Direito é Legal – Texto Diorela)

Quando eu fui invisível

Em julho deste ano, eu voltava da Itália e queria ver a Pam, minha amiga peruana que mora no andar de baixo da nossa casa. Ela me mandou uma mensagem dizendo que estaria no mercado até o início da tarde. Passei lá. Andei o mercado inteiro e não achei a garota. Até que olhei melhor e vi que ela estava trabalhando numa tenda de patisserie. Cheguei rindo dizendo que tinha passado direto por ela e não tinha reconhecido. Ela não riu.

(…)

Continue a leitura aqui.

(Blog Saída à Francesa – texto e foto Diorela)

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Os gêneros, as cores e a moda

É normal que, durante a gravidez, os pais tenham interesse em saber o sexo do bebê. É comum que, depois de saberem, procurem decorar o quarto da criança de acordo com o gênero. É usual que as meninas ganhem um quarto voltado para tons de rosa e os garotos um quarto com tons azuis. Mas é isso uma regra ?

Não mesmo.

(…)

Continue a leitura aqui.

[Site By My Hands, texto em português e inglês por Diorela]

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